Entrevista com o psicólogo Thiago Sampaio para o site Tao Feminino

Entrevista para o site Tao feminino

Publicada em 2016 pelo site Tao Feminino, a matéria sobre ansiedade conta com a participação do psicólogo Thiago Pacheco de Almeida Sampaio, coordenador do AMBAN do IPq-HC-FMUSP e vice-presidente da APORTA durante os biênios de 2003/2004 e 2017/2018. Confira agora os bastidores da reportagem com a entrevista na íntegra.

Ansiedade é considerada uma patologia? Como é possível caracterizá-la?

Assim como o medo e o pânico, a ansiedade é uma emoção de defesa. É natural e necessária para a sobrevivência dos indivíduos. Faz parte de nossa herança filogenética e é compartilhada por todos os mamíferos. A ansiedade nos mobiliza a tomar providências em relação a situações que representem risco ou ameaça à nossa integridade física e psicológica. Portanto, todos nos sentimos ansiosos. Ela passa a ser uma patologia quando é desproporcional ao risco real que a situação representa, quando provoca sofrimento intenso ou se transforma em barreira para atividades importantes (trabalho, lazer, relações sociais e afetivas) limitando a vida da pessoa nessas esferas.

Existem níveis de ansiedade?

Imagino que sua pergunta se refira a pessoas sentirem níveis diferentes de ansiedade. Assim como as pessoas se diferenciam em características morfológicas, no ritmo de desenvolvimento e no temperamento, algumas pessoas são naturalmente mais ansiosas do que outras. Isso pode ser um traço de personalidade, que a psicologia chama de "neuroticismo": uma característica psicológica inata que predispõe o indivíduo a experimentar graus mais elevados de ansiedade (e outras emoções, como tristeza e raiva), aumentando a probabilidade da pessoa desenvolver um Transtorno de Ansiedade. Além disso, as experiências vividas (como vivências traumáticas, ou conviver com modelos parentais muito ansiosos) podem influenciar no grau de ansiedade que ela experimentará frente a situações específicas (no caso de um Transtorno do Estresse Pós-Traumático [TEPT]) ou em relação aos desafios da vida cotidiana (como acontece no Transtorno de Ansiedade Generalizada [TAG]).

Quais particularidades distinguem a ansiedade generalizada da social e outras possíveis variações?

Basicamente, o que vai diferenciar os quadros clínicos ansiosos é o objeto promotor da resposta ansiosa. Na ansiedade social, a pessoa experimenta desconforto intenso ao interagir com outras pessoas, pensa que será criticada, mal avaliada, ridicularizada ou humilhada ao desempenhar-se socialmente (apresentar-se diante de um grupo de pessoas, conversar com uma figura de autoridade ou com uma pessoa do sexo oposto, escrever diante de um desconhecido, ou fazer uma refeição em público) e evita essas situações a despeito dos prejuízos que a não realização dessas atividades implica.

As caraterísticas principais da ansiedade generalizada são a dificuldade em relaxar e as preocupações constantes com questões da vida cotidiana (trabalho, família, saúde etc.). A pessoa tem dificuldade de desligar-se dos problemas e está sempre vivendo o futuro, vendo-o como inseguro e ameaçador. Isso pode trazer prejuízos à atenção. A ansiedade está sempre um pouco elevada e o mobiliza a tomar precauções para problemas cuja ocorrência é pouco provável. Geralmente a pessoa tem necessidade de se sentir no controle das situações, não tolera situações incertas, e tornar-se irritável se as coisas não são resolvidas a sua maneira. Muitas vezes se tornam bons "resolvedores de problemas" externos, mas lidam muito mal com as próprias emoções.

Já nas fobias a ansiedade é dirigida ao objeto fóbico específico (insetos, sangue, lugares fechados, avião, animais). É possível que na ausência de sinais que indiquem ou se refiram a esse objeto a pessoa experimente níveis baixos de ansiedade. No TEPT, após passar por uma experiência extremamente aversiva, em que a integridade física e psicológica tenham sido violentadas ou em que ela tenha presenciado situações de extrema violência com outras pessoas, ela passa a experimentar ansiedade elevada, evita atividades ou lugares associados à vivência traumática, pode ter a consciência repetidamente invadida pela lembrança da cena ou ter a sensação de estar revivendo aquela situação.

Apenas pessoas com problemas sociabilização sofrem com ansiedade? Há um perfil ou gênero que é mais atingido?

Não. As dificuldades de socialização são mais comuns nos quadros de ansiedade social generalizada. Mas em muitos casos de Fobia Social Circunscrita (medo de falar em público, por exemplo), a pessoa pode ser muito sociável. Outras vão ter problemas de socialização por diferentes motivos. Um agorafóbico pode não cultivar amizades por não conseguir sair de casa, por exemplo.

Os Transtornos de Ansiedade são mais frequentes em mulheres. Elas apresentam um risco de desenvolver um quadro clínico ansioso significativamente maior que o dos homens, e diversos estudos sugerem maior gravidade de sintomas, maior prejuízo funcional e maior cronicidade dos Transtornos de Ansiedade entre as mulheres.

Ataques de pânico podem acontecer em alguém que tenha uma "leve ansiedade"? Como lidar?

O ataque de pânico é uma resposta natural do organismo frente a situações de ameaça proximal, ou seja, de extrema emergência. O principal modelo é a asfixia. Todos nós entraremos em pânico se formos impedidos de obter oxigênio... Acontece que às vezes temos reação de pânico em situações nas quais não há esse grau de emergência. É como se o alarme de incêndio estivesse desregulado e disparasse desnecessariamente. Isso pode acontecer com qualquer pessoa, mas é mais frequente em pessoas mais ansiosas. Em geral, quando não se trata propriamente de um Transtorno de Pânico, a crise ocorre em situações muito ansiogênicas para a pessoa. Existem técnicas bastante simples e eficazes para controle de uma crise de pânico. Mas elas são melhor aplicadas sob orientação profissional.

Como o distúrbio impacta no dia-a-dia do indivíduo?

Como falei, o prejuízo funcional surge quando as tentativas de eliminar ou evitar a ansiedade incluem a evitação de atividades ou lugares importantes para a pessoa, ou comportamentos com efeitos indesejáveis como o abuso de álcool. Os Transtornos de Ansiedade podem ser muito debilitantes e desencadear, em decorrência das perdas funcionais, um Transtorno Depressivo secundário ao quadro ansioso, aumentando o sofrimento e piorando o prognóstico.

Quais atividades ajudam o individuo a lidar com ansiedade "moderada"?

Cada pessoa vai se beneficiar mais ou menos de uma atividade ou outra, por exemplo:

  • Boa alimentação, sem exagerar na cafeína e no álcool
  • Atividade física regular
  • Técnicas de relaxamento e meditação
  • Incluir momentos de lazer e descanso na agenda
  • E o principal, abrir mão da luta contra a ansiedade, aceitá-la e não tentar se livrar dela a todo custo

Quanto mais tentamos eliminar ou evitar a ansiedade, mais forte ela ficará. Para relaxar você não deve tentar se livrar da ansiedade, mas permitir que ela esteja presente. Se a ansiedade estiver prejudicando a sua vida ou causando sofrimento intenso, procure um profissional especializado.

_entrevista de Juliana Vaz [para a...]
matéria publicada em 08/02/2016 @ Tao Feminino

revisada e publicada em 02/08/2017

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