Medo vs Fobia

Medo ou Fobia?
Medo é um fato, todo mundo tem. Todo mundo MESMO! Mas quando ou como saber se já é a hora de levar aquele medo um pouco mais a sério e reconhecê-lo como o que ele realmente é – uma fobia? Será que esse medo merece tratamento?

A diferença entre o saudável e o patológico

Por questão de puro desconhecimento, temos, hoje em dia, a tendência em usar uma terminologia de teor patológico para sentimentos comuns do cotidiano, como chamar toda tristeza de Depressão e toda ansiedade de Pânico. Esse tipo de ocorrência se torna especialmente complicada quando a patologia realmente está presente e não é levada a sério. É o caso, muitas vezes, do que acontece em relação às fobias e ao medo normal vs patológico. 

Quando um tipo de sentimento é muito presente no nosso dia-a-dia, costumamos dizer que ele é "normal". Eu já prefiro dizer que ele é COMUM, mas não necessariamente normal. Por exemplo: ter medo de assalto é bem comum (muita gente tem), mas existem medos de assalto que não são normais (se você está dentro de casa e não tem nenhum ladrão ou sinal de assalto, por exemplo). A diferença entre normal e patológico é o que vai, via de regra, orientar o nosso encaminhamento em relação a um medo. O que precisa de tratamento é o medo ANORMAL, ou PATOLÓGICO. E alguns medos não devem nunca ser eliminados, pois são funcionais e vitais para a sobrevivência do indivíduo.

Imagine a cena: você está na beira de um penhasco e não sente MEDO NENHUM. Nem um friozinho no estômago, nem uma tensão no corpo. Isso seria normal? O que acontece com uma pessoa que está super "zen" na beira de um penhasco? Ela apenas fica por ali... olhando a vista, meditando, lixando as unhas... e o tempo que está exposto à altura aumenta, exponencialmente, sua chance de cair também! Já uma pessoa que sente medo irá, "instintivamente", se afastar do perigo, mantendo-se viva e segura. Este é um exemplo típico de um medo normal – além de normal, ele é o que chamamos de "filogenético", ou seja, é próprio da nossa espécie e vem sendo, ao longo dos séculos, selecionado naturalmente pelo processo evolutivo, afinal, indivíduos que têm medo de cair do penhasco tendem também a ter maior longevidade e, consequentemente, maiores chances de se reproduzirem. Assim como o medo de altura, outros medos também são explicados por esta característica de serem grandes protetores do indivíduo. Um outro exemplo bastante comum é o medo de animais pequenos, como insetos, vermes etc.

O medo tem, portanto, uma característica FUNCIONAL. Ou seja, ele ajuda o indivíduo a agir de maneira adequada, preparando-o para um desfecho mais seguro e previsível. Quando você está andando pela rua e vê uma pessoa suspeita com uma arma na mão, você muda de lado na calçada, entra numa loja, sai correndo etc. O medo que você sentiu te ajudou a se comportar de modo coneviente, e você se protegeu. Muitos exemplos do nosso dia-a-dia podem ser analisados à luz dessa ideia de funcionalidade. O medo súbito quando seu chefe te chama na sala dele com cara de bravo, por exemplo, pode ser explicado assim: você acha que ele vai te demitir, e isso pode significar problemas financeiros e, por consequência, escassez de alimento que é outra coisa fundamental para sua sobrevivência. Portanto, podemos generalizar definindo o medo como uma resposta do organismo frente a uma situação de ameaça.

Mas e quando o medo não está relacionado a nenhuma ameaça clara? E se o seu medo for, por exemplo, de elevador? Nenhum animal das cavernas teve medo de elevador, nem cachorros são ameaçadores 100% das vezes. Aliás, como explicar que tem gente que AMA cachorros e gente que só de ver um cachorro já começa a chorar e a suar? Alguma outra coisa está acontecendo aí... porque estamos fora do âmbito da sobrevivência da espécie. Este é um medo injustificado, irracional ou absolutamente desproporcional. Se você vê um rottweiler correndo e rosnando na sua direção, esse medo se justifica. Mas por que então ter uma reação de medo diante de um filhotinho de poodle? E o elevador? Ele não rosna nem morde. E você simplesmente não entra num elevador.

Considerando essas ideias, podemos começar a distinguir bem claramente o medo normal do medo patológico, ou fobia: o medo patológico não está ligado a uma ameaça necessariamente real, e é caracterizado, via de regra, por um comportamento EVITATIVO em relação ao objeto de medo. A evitação de coisas temidas é funcional quando o medo é normal – entretanto, quando o medo é patológico, o que se observa é que essa evitação é, a um mesmo tempo, provocada pelo medo, mas também um fator de manutenção do medo.

Vamos exemplificar...

Uma pessoa que tem fobia de elevador, ao se deparar com uma situação em que precisa pegar o elevador, sente muito medo e vários sinais de ativação autonômica aparecem em seu corpo (suor, tremor, taquicardia etc.). Diante desse mal estar horrível, ela resolve subir pela escada e, assim, se livra de seu desconforto. Mas toda vez que ela se depara com essa situação, esses sinais voltam. Ou seja: o problema continua, apesar de ela sempre se esquivar. O comportamento de evitar a situação produz alívio. E o ser humano busca sempre o conforto e o alívio. O que ocorre é que, em pouco tempo, sua ansiedade é REFORÇADA pelo comportamento de evitação: toda vez que esta pessoa evita o elevador, a ansiedade vai embora, e assim ela nunca aprende a lidar com sua ansiedade de uma maneira que não envolva fuga e esquiva. Cria-se um padrão que irá conduzi-la nas situações em que sentir medo e ansiedade: é só "fugir". Com o tempo, a pessoa começa a fugir sem nem ao menos estar em contato com a situação – ela passa a fazer de tudo para sequer esbarrar na possibilidade de sentir medo de novo.

Percebe-se, portanto, que a evitação que em situações de ameça eminente é bastante funcional, em situações de medo fóbico acaba por cristalizar o problema e por causar uma restrição no repertório comportamental desse indivíduo, geraando problemas para ele. Imagine subir 20 andares de escada? Ou não sair de casa porque você pode se deparar com um cachorrinho na esquina? Logo, uma diferença FUNDAMENTAL entre o medo normal e o patológico é, assim como em outras situações de transtorno mental, o nível de PREJUÍZO e de sofrimento que o indivíduo tem como consequência dele. Se você não gosta de baratas, mas sua vida segue normal, você dificilmente precisa de um tratamento. Mas se você evita lugares, sente medo o tempo todo, não vai à casa de amigos, abandonou o trabalho porque teme cruzar com uma barata no caminho... bingo! Você tem uma fobia.

Ao conversar com uma pessoa que apresenta algum tipo de medo patológico é frequente encontrar algum episódio no seu relato que marque o início do problema. Por exemplo, um arranhão na cara aos 5 anos e hoje o adulto não pode ouvir nem o "miau" de um filhote de gato. Mas, não raro, um indivíduo pode não ter nenhuma história traumática com o objeto de medo. Isso pode acontecer pelo que chamamos de "modelação" (observação de outras pessoas significativas tendo reações fóbicas, com imitação) ou ainda por outros mecanismos complexos de aprendizado.

Classificações e tratamento

Atualmente, dividimos as fobias em 3 grandes subcategorias: as específicas, a social (hoje chamada de "Ansiedade Social") e a agorafobia (fobia a locais abertos de onde a fuga é difícil ou indisponível). Todas as 3 apresentam o mesmo funcionamento: resposta emocional desproporcional a algum elemento, evitação do mesmo e consequente restrição comportamental. Posto isso, suponhamos que você descobriu que o que você tem não é frescura, nem chilique, nem uma coisa bizarra, você tem uma fobia. Sim, você deve levá-la a sério. Quem tem uma fobia tem maior pré-disposição a desenvolver outras fobias ou Transtornos Ansiosos, o que já é mais do que motivo para procurar um tratamento.

O tratamento "padrão-ouro" (o mais eficiente) atualmente é a Terapia de Exposição, uma técnica comportamental que se baseia no fenômeno da habituação para a eliminação da fobia. A habituação é um processo através do qual um organismo, exposto por tempo prolongado à situação aversiva (ou seja, sem resposta de esquiva), deixa de sentir ansiedade e os sinais de ativação autonômica deixam, após algum tempo, de ser emitidos. Este é um fenômeno natural do organismo, que vai "relaxando" à medida que vai identificando que o perigo não afeta, de fato, sua integridade física ou social. Na Terapia de Exposição, o paciente será gradativamente confrontado com seu medo, até que a resposta de ansiedade e esquiva desapareça por meio da "habituação". Isso significa, necessariamente, que é preciso CONFRONTAR a situação temida, e que a ansiedade e o medo estarão presentes. Entretanto, o procedimento é elaborado de maneira a que o paciente seja sempre exposto a um nível mínimo de ansiedade, indo aos poucos ganhando confiança e sentindo que pode adquirir mais controle sobre seu medo.

A Terapia de Exposição é uma técnica detalhada e específica, e deve ser conduzida por um profissional treinado e preparado para as dificuldades do processo. Sim, existem várias dificuldades – a própria ideia de ficar exposto ao objeto fóbico já é, muitas vezes, o suficiente para a pessoa abandonar o tratamento antes mesmo de começar, mas o profissional qualificado cuidará de elaborar um processo compatível ao nível de tolerância do paciente. A Exposição é extremamente eficiente. Portanto, se você tem ou conhece alguém com alguma fobia, não deixe de procurar ajuda ou de incentivar a pessoa a fazê-lo. As fobias sabotam a qualidade de vida e, a longo prazo, podem levar à Depressão. Elas são hoje um problema comum e que muitas vezes acabam ignoradas por anos à fio, levando a mais sofrimento desnecessário.

_texto de Ana Paula Ferreira
publicado em 07/11/2013 @ TCC em Pauta
revisado e republicado em 02/07/2017

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